A menina Gisele Farias Fernandes, 10, conseguiu superar o limiar invisível entre o físico e o espiritual. Perdeu muito sangue e está com a garganta encoberta por curativos que impedem a passagem de ar e, por conseguinte, abafam sua voz. Ontem à tarde, por volta das 16h, ela foi do cerol de uma linha para papagaio de papel estendida no meio da rua pelo menor M.G. 17. Perto do estádio de futebol Gilberto Mestrinho. Ela continua internada no hospital geral de Manacapuru.
Na avaliação do cirurgião Helder Espírito Dias, do Hospital Geral, Gisele foi praticamente salva pelos atendentes do Posto Médico do bairro União, que imediatamente à ocorrência, aplicaram um torniquete no pescoço da menina, evitando que mais sangue se derramasse. Mesmo assim, Gisele perdeu
Depois de atendida emergencialmente no posto médico, Gisele foi encaminhada ao Hospital Geral onde foi submetida à delicada cirurgia. O cirurgião Helder Dias conta que a equipe médica teve que suturar a veia jugular, que estava decepada, numa cirurgia que demorou mais de 60 minutos, controlar os batimentos cardíacos e a pressão arterial da menina e, ao mesmo tempo, realizar os procedimentos necessários para a sutura dos cortes no pescoço e no rosto. Na gíria comum, Gisele nasceu de novo pelas mãos de médicos e enfermeiros e atendente. Sua família está, ainda, bastante comovida com tudo o que aconteceu.
Helena Farias Fernandes, 42, mãe de Gisele, por exemplo, já chorou o bastante. Agora, sentada à beira do leito onde repousa a menina, ela só acaricia os negros cabelos da filha caçula e fala, com resignação, do acidente que quase transformava toda sua vida. “Quando eu soube que minha filha tinha ficado muito ferida eu me desesperei e corri para o posto médico. Lá, me disseram que ela tinha sido trazida para o hospital, porque o corte era muito profundo”, explicou Helena com voz mansa, quase um sussuro. Mãe de 7 filhos ( Gisele é a mais nova), Helena é doméstica e no instante do acidente, estava em casa lavando roupa. “Além dos filhos, tenho o meu marido para cuidar”, responde.
Helena não tem revolta e nem guarda mágoa do menor que deixou a linha com cerol esticada no meio da rua. Para ela, foi tudo uma fatalidade. Mas, não é assim que pensa e age a população de Manacapuru que, revoltada, exige que a polícia e a justiça ajam firmemente no sentido de proibir a brincadeira de papagaio de papel na área urbana, principal mente perto de aglomerados residenciais, a fim de que a vida das pessoas seja preservada. Eles têm razão.
O que aconteceu com Gisele já ocorreu em Manaus, em Itacoatiara, Parintins e por aí afora. Ela vinha conduzindo sua bicicleta, ontem (30), por volta das 16horas, próximo ao estádio Gilberto Mestrinho quando, sem mais nem menos, esbarrou na linha esticada. Com cerol. Ela apenas sentiu o sangue escorrer. Mesmo assim conseguiu chegar a um posto de saúde já banhada